sexta-feira, 23 de março de 2018

DO COMPORTAMENTO AO PROBLEMA




Os comportamentos dos seres humanos, bem como de outras espécies de animais, são, muitas vezes, reacções de alguma realidade que esteja ligada a eles. Se reparamos para uma cena estranha a um individuo, temos rapidamente tirado ilações sobre ela e a reprovamos, quando negativas, e assim julgamo-la.

Pois é, foram muitas das que cometi esse erro de julgar as pessoas pelo que fazem, pelo comportamento, geralmente repugnante, e tenho, num momento posterior, descoberto certas coisas sobre a vida desse individuo e, então, pude compreender as causas que estariam por detrás aquele comportamento, daquelas acções – tratava-se de uma revolta interna, ou mesmo reacções ao que estava sujeito.

Um facto similar, com carácter reprovável, aconteceu em uma jornada científica que terei participado, onde haviam grandes individualidades académicas do país e do estrangeiro, referentes a áreas da linguagem e educação. O evento estava aberto a estudantes interessados, mas com enfoque a estudantes das áreas referidas (linguística, literatura, ensino de línguas, etc.) e decorria em uma das instituições superiores do país, por sinal, mais conceituada e respeitada.

Aconteceu que estava previsto no programa sessões de apresentações de comunicações e um momento de intervalo para o lanche, este momento não estava restrito a ninguém, era para os comunicadores e os participantes. Os participantes, na sua maioria estudantes, adiantaram-se e, (brutalmente) pegaram avidamente nos aperitivos que ali estavam disponíveis (que nem eram tantos assim, era só para cumprimentar o estômago), pegando, cada, a maior parte que conseguisse pegar, como se do provérbio popular «farinha pouca, meu pote primeiro» se tratasse. Os comunicadores dentre os nacionais e internacionais quase que, pelo comportamento mais refinado ou se preferirem «civilizados», que saiam da sala de apresentações devagar, a trocar impressões e a comentar sobre certos aspectos pessoais, chegaram ao lugar do banquete e só encontraram água e café mesmo, os bolos, as chamussas, os rissóis, a fruta, etc. havia-se acabado, citando um dos docentes da universidade, como se tivesse passado um tufão e arrasado tudo.

E enfim, enquanto os meus conterrâneos gladiavam pela comida que não era para saciar, mas mimar o estômago, eu observava, mas garantindo minha parte (nem foi tanta, cheguei um pouco a frente dos intelectuais que comunicavam – receio que me tenham visto por aí por alguém a procurar fendas entre as pessoas para conseguir as duas chamussas e uma sandes), e projectava um certo olhar de desdém àquela cena, até comentava com o meu colega sobre aquele comportamento animalesco que era ali exposto, dando uma imagem talvez negativa a nós moçambicanos em relação a nós próprios e aos que nos vinham visitar.

Lembro-me até que, em aula, uma professora terá comentado com a turma, reprovando, sobre a forma bruta como se fizeram aos alimentos os estudantes, deixando migalhas, sementes e cascas para os comunicadores. Ela, por acaso, era encarregada, junto de outros mais indivíduos, de fazer sarna aos convidados estrangeiros e por isso, presumo qual teria sido sua situação embaraçosa diante aquela cena, sobretudo com a impressão que poderão ter tido de nós.

Vista esta situação, fiquei pensando sobre este facto, e repensando esse pensamento várias vezes, associei ao comportamento, na base da explicação já mencionada, sobre as reacções ou as causas de tais modos de ser e estar. Não foi por acaso que estes estudantes agiram dessa forma, as hipóteses de mau comportamento, egoísmo, entre outros negativos, não estão na primeira abordagem de causas, consideremo-las secundárias àquela que é primeira e fundamental: há fome no país.

Se tirarmos o país e colocarmos casas, famílias, à luz da ideia de diferenças económicas das famílias, havendo, portanto, uns ricos e outros pobres. Estes não vivem da mesma forma, não têm a mesma preocupação, o mesmo problema, as mesmas formas de ver o mundo. As preocupações dos ricos, geralmente, são, talvez pela intangibilidade em sua vida naquele instante, considera desmerecedoras de atenção. O rico quer brincar, quer vestir caro, quer andar caro, quer tudo que seja de superior relevância; o seu estágio de vida escusa-o de preocupações de necessidades básicas para a sobrevivência do ser humano, agora ele está de olhos ao entretenimento, àquilo de grau superior. Por outro lado, o pobre não tem essa entrega aos prazeres da vida, não por não haver desejo, mas por faltar capacidade, poder, resume-se a sua condição, trabalhando e enveredando esforços para a supressão de suas necessidades básicas – comida, habitação, saúde, etc.

O ponto mais crítico de análise desses dois indivíduos num mesmo contexto, uma festa, supondo. Na hora de comer, a quantidade de comida e o tipo de comida colhido por cada um, é diferente, por inúmeras causas. Talvez o rico não tenha tanta fome como o outro pois antes de sair de casa terá comido alguma coisa, não no sentido de ir evitar comer bastante, mas pelo facto de ter de comer; o pobre, talvez terá rescindido a cozinha alegadamente que irá preencher o espaço com os manjares da festa. Talvez porque o rico não vê tanto valor na comida, pois, como afirmei, não faz parte de suas preocupações, e portanto, como só para se manter vivo, não porque tem grandes necessidades, e o pobre tem nela sua maior atenção por se tratar de um recurso problemático para ele, e naquele instante tem de absorver a maior quantidade de alimentos possível, pois tem de garantir que nas próximas horas não sentirá fome (embora não pense na ideia de que a festa acaba e ele volta a sua casota.

Estas posturas revelam muito sobre estas duas individualidades, o rico e o pobre, a preocupação de um é banal para o outro, e enfim. Ligando esta toda situação, analogicamente, pode-se comparar com a dos países chamados desenvolvidos e os em via de desenvolvimento. As preocupações e os desafios são extremamente diferentes, enquanto os primeiros preocupam-se em inovar suas tecnologias, conhecer mais e melhor, técnicas e métodos de longevidade, ou seja, alongar a esperança de vida o mais possível, os outros preocupam-se em sanar a segurança alimentar, implementar educação e saúde eficazes para a sua superpopulação. Superpopulação pelo facto de haver mais gente que recursos para sustê-los.

A posição dos nossos conterrâneos e contemporâneos estudantes não se pode olhar como uma fraqueza ou pobreza moral, de ética, de «civilização», não. O problema que assola àquela amostra da população moçambicana (que nem é assim tão boa referência de amostra, visto que, pelo menos, estando e gozando da vantagem de estar na capital do país tenham um pouco mais de conforto relativamente ao resto do país, razão pela qual tem sido destino de muitos compatriotas nossos que vivem nas outras províncias) é a pobreza em si, que se traduz, nesse caso, pela fome, pela preocupação de puxar o máximo de alimentos possíveis para si, pois em situações de fome como tal, olhar para os outros é ficção, você precisa servir-se a si próprio e aos seus e só depois para o outro. Aquela cena era a demonstração da situação deplorável de fome que vivemos no país; foi como uma revelação, para mim, da nossa condição de fome (há quem diga que fome seja uma calamidade, então haja a necessidade de se combater).

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